Abutres…nome que já granjeou fama e impôs respeito por todo o País (e no estrangeiro, também), no que concerne ao cada vez mais participado mundo do Trail Running (ou corrida em trilhos, em bom português).

Prova dura, muito técnica, sempre dependente das condições meteorológicas para agravar ou não a sua “dureza”, corrida em pleno Inverno e implacável para quem não a encara com o devido respeito que ela merece.

Para esta 5ª edição previam-se, desde a abertura das inscrições (e que esgotaram em poucas horas), algumas dificuldades acrescidas, face ao elevado número de atletas presentes nos estreitos trilhos e carreiros. A Serra da Lousã, majestosa e dura mas recompensadora, haveria de saber acolher tanta gente, ou não…

2015 foi a minha 4ª presença nos trilhos abútricos, tendo apenas falhado a 1ª edição. Confesso que me senti algo apreensivo, por saber que não teria efectuado treinos longos e específicos suficientes para encarar este desafio com optimismo q.b., mas estas ultra-distâncias encerram sempre muitas surpresas, por vezes bem agradáveis.

Preparada a mochila, o kit de “sobrevivência” com o material obrigatório, a indumentária e o calçado indispensável para não falhar (após breve consulta ao boletim meteorológico), previ que não iria ser por alguma falha nesta vertente de planeamento, que iria deixar de concluir a prova.

Viagem para Miranda do Corvo, 6ª à noite, já debaixo de alguma chuva e vento, que se agravariam pela noite e madrugada, condições que se vieram a revelar cruciais para que a organização fosse forçada a adiar por 2 horas a partida, no Sábado de manhã, e após análise e algumas alterações aos troços da prova.

10h00 – Partida da prova dos 50Km, com a habitual saída do pavilhão, percorrendo algumas ruas da vila, curiosamente com sol, apesar do temporal nocturno. Bastante alcatrão pisado, mais do que é costume (5 kms) feitos a ritmos de estrada, até alguém disse que ia ser a Maratona de Miranda do Corvo (risos...). Com o pelotão bem mais alongado, entrámos nos trilhos, de início bem rolantes (aliás, esta edição deve ter sido a mais corrível de todas, apesar das condições de aderência serem as mais precárias de sempre, um aparente contra-senso que tentarei explicar ao longo desta crónica) mas ficando cada vez mais estreitos, escorregadios e difíceis de percorrer. As filas de atletas já eram enormes, fazendo perder bastante tempo à espera da nossa vez de passar por alguma maior ou menor dificuldade do terreno. Apesar disso, os primeiros 10 kms de prova foram feitos em pouco mais de 1h00 (1h04, para ser exacto). Estupenda média para uma prova tão dura, pensei eu, talvez até rápida demais mas quem se lembra de tal quando se sente bem? E não deixava de ser um óptimo “tónico mental” para o que ainda faltava…

Até aos 19 kms (zona em que se passa numa lindíssima barragem) começou-se a ganhar altimetria, por vezes de forma acentuada, e o tempo, que se tinha mantido mais ou menos estável, começou a mudar (de forma quase assustadora). Grandes trovões ouviram-se, a chuva começa a cair forte, a temperatura a descer abruptamente e até granizo vimos e sentimos cair. Foi então que começou um desfilar de corta-ventos e casacos a sair das mochilas de cada um, à procura de algum conforto proporcionado por tal equipamento. À medida que nos íamos aproximando do 1º pico do dia (a 925m de altitude, perto do 25ºkm), o frio começa a fazer-se sentir de forma aguda, continuava a cair granizo e gelo (que se acumulava no chão, provocando um bonito efeito de “quase” neve). Apesar de levar luvas, sentia os dedos enregelados e com mobilidade reduzida, pois estas encontravam-se ensopadas devido à chuva e às muitas ribeiras atravessadas, com caudais acima do normal. Havia que tentar correr o mais possível, para gerar calor corporal e não ceder à possível hipotermia, apesar de levar vestido uma camisola térmica, outra técnica do clube e mais um corta-vento (3 camadas). A água, que frequentemente nos “lavava” os pés e pernas, era também ela gelada…

Conquistado o 1º cume, é altura de descer por trilhos e estradões, tentando sempre correr. As descidas revelam-se bastante traiçoeiras, com muita água, pedras molhadas e lama, tornando as condições de aderência bastante precárias. Qualquer desatenção pagar-se-ia bastante cara… Felizmente tudo correu bem, até à descida final por uma corda (numa autêntica torrente de lama), mesmo antes do abastecimento dos 30 Kms, na Sr.ª da Piedade, onde chego com perto de 4h30.
O cansaço acumulado já era evidente, a descida é sempre muito mais exigente a nível físico. Era altura de repor calorias, com uma sopa quente, marmelada, tostas com mel, isotónico, tomate com sal, etc. (abastecimentos muito bons e completos, diga-se de passagem).

Havia que seguir viagem, dois dos quilómetros mais difíceis da prova estavam diante de mim. Quase 35 minutos para os percorrer demonstram bem a sua dureza, já a sua beleza ficou em mim gravada (cascatas e vegetação luxuriante, qual floresta inexplorada…).
Aproximava-se mais uma ascensão a 925 metros, o frio voltava a intensificar-se e havia que tentar correr, por mais devagar que fosse. Os quilómetros iam, literalmente, escorrendo do meu relógio GPS (nem olhava para ele, apenas o ia sentindo vibrar ao marcar mais um milhar de metros percorridos…). Come-se mais uma barra, mais um gel, um gole de isotónico e mais uns trilhos de água e lama e chego a mais um cume (o 2º do dia, ao 36-37º km), onde estava um abastecimento que agradou a muita gente (bifanas, cerveja, chá quente e algum calor humano). Pouco tempo por lá permaneci…

O trilho seguinte, feito a descer e com uma inclinação pouco exagerada, é dos mais bonitos da prova, senão o mais bonito. Entra-se num pinhal cerrado, nada de lama nem água em exagero, só piso suficientemente compacto e amortecedor, intercalado por um estradão do tipo “corta-fogo” pedregoso. Até Gondramaz, lindíssima aldeia de xisto numa encosta da Serra, seguimos por outro estradão que permitia correr (mais uma alteração de última hora, por parte da organização), evitando a zona mais técnica e perigosa do Penedo dos Corvos.

Saímos de Gondramaz por um estradão diferente, que viria a entroncar no famoso trilho das pontes, sobre a ribeira de Espinho, mais à frente, poupando assim mais uma zona muito técnica e algo perigosa. Daqui para a frente, seria quase sempre a rolar até ao último abastecimento, na aldeia de Espinho, assim permitissem as pernas. Com algumas ameaças de cãibras, sou forçado a abrandar o ritmo pois o trilho, embora rolante, obrigava ainda a algum esforço muscular para levantar os pés do chão, em virtude de algumas pedras e obstáculos. Forças é que já não havia muitas…

Aldeia de Espinho à vista (ao 45ºkm), presumi que a parte final do percurso fosse um mero passeio de consagração, em trilhos mais ou menos fáceis, para recuperar um pouco de um dia épico mas cansativo. Puro engano… a partir daqui, a organização da prova, que até estivera muito bem nas alterações efectuadas, “borrou completa e literalmente a pintura”, em grande! Obrigar-nos a percorrer, quase ao anoitecer (para mim, porque houve quem por lá tivesse passado, na quase total escuridão de uma mera luz de frontal enlameado), piscinas de lama com profundidades bem assustadoras (deu até para ficar “enterrado” até ao peito), sem alternativas, foi a meu ver, estúpido, desnecessário (porque havia alternativas) e não trouxe qualquer mais-valia à prova. Tornou-se, inclusive, perigoso para a integridade física dos atletas, tal “pocilga” de barro e lama merdosa.

Nem a passagem mais à frente pela célebre levada, com alguma água lamacenta para lavar um pouco os pés (e a alma), me fez sentir melhor; senti aquele lamaçal como uma traição ao espírito da prova, o que fez com que nem me apercebesse que um amigo chamava por mim (nem o conheci, coitado), eu devia ir mesmo com lama nos ouvidos e no cérebro…

Só a chegar a Miranda do Corvo, no viaduto pedonal sobre a estrada, é que o reconheci e lhe pedi desculpas pela anormalidade de há uns minutos atrás. Como compensação, e como ia pior do que eu (naquela “raiva” toda, fui buscar forças onde pensava já não existirem), esperei por ele e fiz questão em acompanhá-lo até à meta, para tentarmos fechar a prova abaixo das 8h00. Ainda faltavam percorrer cerca de 2 kms de alcatrão (sob uma chuvada copiosa e gelada), a subida final junto ao pavilhão e a entrada apoteótica no mesmo, para cortar a meta.

Conseguimos fazê-lo em 7h59’07’’, com o GPS a indicar 50 bons quilómetros, ou “lamómetros”, que satisfação enorme!
Em resumo, poucas provas “aventura” marcam tanto um atleta como esta. Quem já a fez, sabe bem do que falo. Para quem nunca a realizou, inscrevam-se e tentem conclui-la, uma vez que seja, e comprovem o que vos escrevo…

Pedro Gabriel