Meus caros amigos, o que é a liberdade? Liberdade designa a ausência de submissão, de servidão e de determinação, isto é, ela qualifica a independência do ser humano. Liberdade é também a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional. Isto é, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários.

Mas decerto que cada um de nós terá um significado próprio para esta palavra, já de si tão bela...

E ontem à noite, pelas ruas de Almada e pelos trilhos do Parque da Paz, perto de uma centena (ou mais) de amigos exerceu o seu direito à liberdade sempre responsável, da forma mais espontânea e voluntária que existe, através da corrida.

Após este preâmbulo, resta-me tentar dar o meu modesto testemunho sobre a 1ª edição do Super-Trail Pirata dos APPs.

Chegado ao local combinado, já eram muitas as caras conhecidas, que foram aumentando, mal nos aproximávamos da hora de partida. Muitos amigos marcaram presença, APP’s, também do Mundo da Corrida e de outras colectividades, associações e individuais. O que nos uniu e une a todos, é o prazer de correr. A adesão, creio eu, superou largamente as melhores expectativas. Piratas equipados a rigor, algumas caveiras (o Bope estaria presente???), muitas luzinhas e boa disposição.

Aquecimento feito em marcha até ao bem conhecido “muro” (que não é o das lamentaçõesJ) do Parque, para recolhermos mais alguns amigos e eis que é dada a partida, pelo padrinho do evento, o “nosso enorme” atleta que dispensa apresentações, Rui Silva.

No primeiro ponto sensível, pelotão de “pirilampos” compacto na dupla passadeira na rotunda do Brejo, tudo tranquilo, com os automobilistas a serem condescendentes ao ponto de ligarem os quatro piscas a avisar quem atrás vinha. Um cenário que se viria a repetir noutros pontos do percurso.

Passagens por locais mais ou menos emblemáticos de Almada, Cova da Piedade, rotunda Central, onde até o condutor do Metro de superfície ajudou à festa e esperou pelos atletas que iam dando “voltas ao coreto”, numa tentativa de reagrupar o pelotão, após as primeiras dificuldades (subidas?) e depois a descida até Cacilhas, onde a fragata D. Fernando e Glória, e o célebre farol adicionaram beleza histórica ao percurso.

A partir daqui, a vista seria outra. Sempre ladeados pelo rio e com Lisboa na outra margem, qual espectadora atenta, seguimos com cuidado (alguns obstáculos, buracos e zonas estreitas) até ao Olho-de-boi, com passagem (e direito a aplausos, por parte do pessoal do restaurante) pelo “Atira-te ao Rio”. Até o “nosso” atleta e há muito lesionado, Rui Remédios, que mais tarde (só depois das 0h00) seria homenageado pelo seu aniversário, deu um ar de sua graça e ajudou, a correr, os últimos bravos do pelotão, a chegar lá acima. Que eu saiba, nenhum pirata necessitou de usar o elevador panorâmico, mais um ex-líbris do concelho.

Vencida a dificuldade da subida (2ª ou mesmo 1ª categoria, apesar de não ser muito extensa), mais um banho de multidão, em Almada Velha, com o pessoal da noite a não deixar os seus créditos por mãos alheias. O álcool já era bastante por ali, algumas “bocas” mais ou menos foleiras mas sempre o mesmo olhar misto de espanto e consideração.

Nova dificuldade até ao planalto do Cristo-Rei, com alguns piratas a atalharem (sim, eu vi, por uma passagem secreta, debaixo de um prédioJ) mas sempre com boa disposição e apoio aos retardatários. Lá em cima, o pelotão esperava pelos mais lentos, mais uma vez o espírito de grupo prevaleceu.

Descida até ao Pragal, onde tivemos um tête-à-tête surpresa com a viatura da autoridade (PSP) que, com todo o respeito nos cumprimentou. Da nossa parte fizemos o mesmo e seguimos viagem, cientes de que ao haver responsabilidade cívica não gerámos qualquer transtorno nem cometemos alguma ilegalidade.

Já na descida para o Centro-Sul, fomos brindados pela presença de duas composições do Metro, que se cruzaram na estação da Ramalha, enquanto nós, atletas, seguíamos em bom ritmo.

Parque da Paz à vista, último ponto sensível do percurso (talvez o maior), a travessia do Centro-Sul. Mais uma vez contámos com a colaboração e bom senso de todos, inclusive de alguns automobilistas anónimos, aos quais agradeço. Do rapaz da Telepizza, parado nos semáforos, boquiaberto a olhar para nós, não me vou esquecer tão cedo. Perguntava ele, com sotaque tropical: “Isso aí é prova, gente?” “Não, é apenas um passeio, de piratas amigos”-respondi-lhe. Ficou a rir-se…

Passada a ponte pedonal (ai Valdemar, Valdemar, que foste o único que pirateou esta), eis que estávamos em casa, em pleno Parque da Paz. Uma volta ao lago, mais um reagrupamento para a volta maior e final. No escuro do Parque, as luzes frontais brilharam mais e emprestaram uma atmosfera digna de registo, cheia de beleza nocturna e deveras emocionante, nas últimas subidas e descidas até à meta. Foi de arrepiar e para mais tarde recordar.

Uma palavra de extremo apreço para o José Galvão, para os filhos e para o Rui Remédios, que funcionaram como viatura oficial da prova, fotógrafos da prova e também como carro vassoura, conseguindo estar presentes em todos os pontos fulcrais do trajecto, sempre prontos a apoiar os corredores com uma palavra amiga. Digno de registo.

Convívio final nas excelentes instalações, gentilmente cedidas pelo Cova da Piedade, onde todos os piratas tiveram direito ao seu quinhão de “Rum”, mantimentos e dois dedos de conversa amiga. Altamente retemperador.

Não queria terminar sem agradecer a todos os que marcaram presença e que abrilhantaram (literalmente) esta festa da corrida e da liberdade e, em particular, aos amigos Paulo Pires (realizador do “brutal” vídeo de promoção da prova), Luís Parro (nosso pirata-mor e mentor), Luís Miguel Roque (cameraman da prova e negociador do espaço de convívio) e padrinho Rui Silva (comandante chefe da pirataria), que sempre zelaram pelo tranquilo, ordeiro e solidário decorrer deste evento. Bem Hajam por tudo.

Quanto aos que não puderam ou quiseram comparecer, uma sugestão, pensem já em ir ao próximo evento, apreciem e depois digam qualquer coisa. Já estamos todos à espera da próxima prova pirata…

Bons Treinos

PG