A MARATONA

Faz quase um ano corri a minha primeira e única maratona até hoje. Vem isto a propósito de  ter assistido ao Campeonato da Europa de Atletismo em Barcelona neste ano de 2010. Enquanto decorria a prova da Maratona, o comentador (por sinal excelente) ia fazendo o retrato possível do estado de alma e físico daqueles homens que corriam a prova mais dura a que se pode submeter um ser humano, ele ressaltou que hoje se fazem provas de maior distância, mas ,  aqui está o cerne da questão, na Maratona existe ainda o factor de razoabilidade de submeter o corpo a um esforço que vai o limite, sem passar o mesmo e mantendo níveis de performance elevados, o que não acontece a partir dessa distância.

 

Olhando os atletas, com uma feição de enorme esforço, veio-me á memória as minhas quatro horas e meia de corrida para fazer o percurso de 42 km. Aqueles homens preparam-se afincadamente para fazer esta prova, conheço um dos atletas Portugueses, Alberto Chaiça, sei da facilidade que ele treina e corre, mas em Barcelona vi bem espelhado no rosto dele, no final da prova , o esforço e a dor motivada por um infeliz incidente que quase o fez abandonar a prova. Um atleta Francês que até meio da prova parecia fresco que nem um repolho, a meio da prova começou a dar sinais de cansaço e acabou mesmo por desistir. Dizia o comentador que durante o percurso estes homens passam por vários estádios, nomeadamente; sofrimento, cansaço, dor, e psicologicamente é uma catadupa de estados de alma, sendo aí que o atleta tem que fazer, muitas vezes, das tripas coração, isto é tem que procurar no mais recôndito lugar as forças para não desistir, não sentir aquela dor que o incomoda, o sentimento de impotência perante uma distância que já ultrapassou os 30 km e parece que de repente as forças todas faltam…

 

Estamos a falar, quem participou na Maratona de Barcelona, de atletas profissionais ou semiprofissionais, indivíduos que fazem da corrida o seu dia a dia.

 

Imagine-se, agora, o cidadão comum que corre apenas pelo prazer de partilhar alguns momentos com companheiros e ao mesmo tempo melhorar a sua qualidade de vida através da corrida e começa a pensar em fazer uma maratona.

 

Em Portugal a lista ainda não é longa de atletas de pelotão que fizeram a mítica distância, tenho orgulho em ter feito pelo menos uma e ter, como amigos e conhecidos, vários atletas de pelotão que já fizeram uma ou mais, sendo que um deles irá completar em breve a sua trigésima maratona ( sim, 30 vezes 42 km, façam a conta).

 

A minha experiência na maratona foi arrasadora, literalmente, fiz 32 km a sentir-me razoavelmente, mas a partir desta distância foi um calvário os músculos cederam surgiram as caibriãs e o meu estado físico passou, num ápice, de razoável a sofrível. Tudo se desmoronou, o meu estado psicológico ficou de repente arrasado tal como o físico, faltava força, faltavam forças. A tentativa de correr mais um pouco era uma epopeia comparada a carregar um peso enorme por uma montanha acima. Sou por natureza persistente e tenho muito, penso eu, espírito de sacrifício, e com dificuldade acabei por não desistir e impor-me a mim próprio a obrigação de terminar aquela prova, desse por onde desse. Andei, nem sempre corri, nesses últimos 10 km, mas isso em nada menoriza o feito de a terminar, pois já ouvi muita gente dizer qualquer coisa do género, “ eu para ir , tenho que ir fazer o tempo x ou o tempo y …”, eu direi, vão , que esse tipo de comentário apenas serve para ocultar o medo de falhar, é preciso é ir e fazer, depois dizer, valeu a pena todo este sacrifício, esse é o grande prémio.

 

A maratona é uma experiência única.